Danilo Silva

Da vida eu quero fazer o bem pelo meio da arte. Como? Ainda não sei. Mas creio que estou no caminho certo.

Minha rotina é bem conturbada aqui. Por conta dos trabalhos mil que faço pra financiar meus estudos, tenho semanas muito cheias assim como outras mais leves. Além de estudar, trabalho como guia turístico, babá, mediador cultural. Também já trabalhei por 6 meses como entregador de pizza, fazia todas as entregas de bicicleta.

Meus amigos mais próximos aqui em Paris são os outros imigrantes brasileiros com os quais me relaciono e trabalho. No entanto, frequento um pouco também os grupos de colegas de turma da faculdade, mas a relação é mais complexa por questões de diferenças socioculturais da sociedade francesa ligadas às relações interpessoais. Frequento também amigos que moram próximos da minha casa, inicialmente amigos do meu namorado, mas que com o tempo fomos nos aproximando mais.

Estando fora, penso muito mais no Brasil. É um exercício diário. Penso no que é ser brasileiro, e em como eu sou brasileiro. Um sonho concreto que pretendo realizar é trabalhar num museu/centro de arte francês e/ou europeu, pra conhecer como funcionam estas instituições e, em seguida, quem sabe, levar a experiência para o Brasil. O cenário cultural na França, principalmente no meio museal, tem trabalhado cada vez mais com a exportação de exposições temporárias para o exterior, inclusive pro Brasil. Minha ideia é também poder colaborar nesse tipo de projeto. E, enfim, pretendo desenvolver minha própria criação artística, que encontra-se atualmente em hibernação, mas em constante produção (teórica, não prática).

Sinto falta da espontaneidade das pessoas, da informalidade das relações interpessoais, da flexibilidade na resolução de problemas no dia-dia, no trabalho, entre amigos. Tenho audade da família e dos amigos. Saudade de ver um pedaço de natureza no alcance da minha visão. Saudade de morar num país onde ainda há espaço pra construir e que, para isso, não seja necessário demolir e/ou modificar o que já existe. Saudade da música – oh meu deus! – tão rica, que a gente não se dá conta quando mora dentro, mas que, quando tá fora, é algo que grita de tanta falta que faz.

Carrego a imagem de um Brasil mineiro, porque é o trecho de Brasil que conheço. O resto da imagem é algo verde e colorido subindo pro norte, molhado. E verde escuro e mais fresco, no sul. A imagem que carrego do Brasil é muito complexa, de uma sociedade em transição e dividida em micro outras sociedades. Uma sociedade que se mostra drasticamente conservadora nos últimos tempos, mas ao mesmo tempo extremamente criativa e progressista. Vejo daqui atualmente um Brasil assustado, em choque, mas que não para de andar. Vejo daqui um Brasil com um potencial imenso, uma energia condensada e ainda não canalizada; um país em busca de uma identidade que possa ajudá-lo a se compreender, uma identidade nova, mas sempre mutante, para ajudá-lo a saber ao menos com que roupa ele vai; e que língua vai falar, em que cores. O Brasil que guardo em mim é também um Brasil que existe concretamente uma vez a cada um ou dois anos, um Brasil que por meses significa apenas alguns dígitos a menos na minha conta bancária, por conta das passagens aéreas cada vez mais caras. O Brasil que carrego dentro de mim é muito imaginário, até que eu pise no aeroporto carioca; até que, no rosto, eu sinto essa humildade que só existe aí; até que eu ouça o primeiro palavrão bem falado, aberto, sonoro, largo; até que eu trombe com alguém e fale “desculpa” e não “pardon”.

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