Leonardo Martins

Eu acho que eu não sinto mais falta de lugares. Eu sinto falta das pessoas.

Assim que eu terminei a faculdade de Engenharia de Minas, recebi uma proposta de trabalho na Austrália. Não podia recusar, tinha acabado de me formar. Fui para lá com uma situação muito boa, pois a empresa oferecia transporte e moradia. Permaneci nesse emprego por dois anos e, depois, voltei para o Brasil. Nesse período em que estava no Brasil, decidi voltar para a Austrália e fiz o pedido para visto de trabalho, que demorou muito tempo. Quando saiu, eles pediram que eu me mudasse para lá rapidamente para finalizar e firmar o pedido. Eu pedi uma folga no trabalho, fui para lá e resolvi tudo em um fim de semana. Não dava para eu ir sem um emprego, eu gosto das coisas bem planejadas. Depois, eu fiquei mandando currículo até conseguir um emprego lá para eu poder me mudar de vez.

Foi muito bom, os salários são altos, eu consegui juntar muito dinheiro, comprei um apartamento, me estabeleci e me tornei cidadão australiano. E, de repente, veio essa crise financeira e tudo começou a piorar. Perdi meu emprego e fiquei desesperado, mas eu continuei por lá. Resolvi trabalhar em um café. Nunca tinha trabalhado em nada fora da minha área e, mesmo para isso, estava difícil, porque as pessoas perceberam que eu tinha muita qualificação para trabalhar em um café. Eu só consegui este emprego para lavar chão e entregar café, porque um amigo meu, que ia sempre tomar café lá, conversou com a gerente. Ela viu meu currículo e perguntou se eu tinha certeza se eu queria lavar chão. Eu pedi a oportunidade a ela, já que eu não estava fazendo nada em casa. Disse que eu era igual a todos ali, não me sintia melhor do que ninguém que trabalhava lá, até porque eu nunca tinha feito esse tipo de trabalho, então poderia até ser pior do que os outros nesta tarefa. Foi um período que eu fiquei um pouco depressivo, mas o fato de estar trabalhando me animou um pouco mais, porque eu passei uns quatro meses enviando currículo, fazendo entrevista, sem conseguir nada. Ficava frustrado. E, trabalhando no café, eu não tinha tempo para pensar nessas coisas.

Até que um dia, numa dessas noites em que estava procurando emprego, eu resolvi tentar em algum lugar diferente, mesmo fora da Austrália. Foi quando eu vi uma oferta de emprego que não dizia para onde era e acabei vindo para Portugal. Voltei a trabalhar na minha área, integrando uma equipe de engenheiros portugueses e ingleses. De brasileiro só tem eu.

Moro no interior, em uma vila muito pequena, de sete mil pessoas, então não tem muita coisa aqui. Há 50 minutos de carro, tem lugares muito bonitos. Tem colegas que, no fim de semana, me ligam dizendo que vão para a praia, sentido sul, e eu não falo “não” porque eu moro sozinho e não tem ninguém para conversar comigo. Então, para cinema e jantar eu não falo “não”. Às vezes, chego cansado, mas vou. Isso é muito bom, até porque eu não tive isso na Austrália. Portugal é uma cultura mais próxima a nossa. Na Austrália, demora mais para interagir.

Quando eu estava na Austrália, ia ao Brasil duas vezes por ano. No ano passado, foi um ano que eu não fui, por ter perdido meu emprego. O lado financeiro realmente pesou.  Da Austrália, eu vim direto para Portugal e ainda não tinha ido. No final de abril, tirei férias e passei duas semanas no Brasil. Mas parece que cada vez os intervalos estão ficando maiores.

Outro dia um amigo me perguntou onde eu acho que é minha casa: se é na Austrália, no Brasil ou se eu já me sentia em casa aqui em Portugal. Eu parei pra pensar e não soube responder.

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