Mariana Bracarense

Tenho um amigo de infância que vai se casar na Macedônia em agosto. É um sonho participar. Dancei dança do ventre por mais de 17 anos e conheci muitos libaneses, além disso, um dos grandes amigos do Brasil se mudou para o Líbano. Gostaria de realizar o sonho de visitá-lo e conhecer o que considero um dos mais belos países do mundo.

Vivo em Portugal fazendo doutorado em História. Minha rotina se passa a maior parte do tempo em um apartamento grande no centro de Lisboa, onde alugo um quarto e divido com a proprietária, que é uma francesa. Ela trabalha como chef de cozinha em um restaurante famoso de Lisboa e passa a maior parte do tempo fora de casa. Ambas temos animais de estimação, ela tem um cachorro e eu uma gata. Os dois são amigos e quando estamos em casa passam o tempo brincando, parece que para agradar-nos.

Minha vinda a Lisboa está relacionada à pesquisa no arquivo, mas não consegui articular ainda. Os dias estão divididos entre as atividades da casa, as burocracias (que em Portugal são muitas, mesmo na universidade) e a análise bibliográfica.

Cerca de duas vezes por mês, vou a Évora, onde resolvo questões da universidade, problemas de saúde, dou um workshop de dança e visito os amigos que fiz nos anos anteriores e que continuam em Portugal. Em Lisboa, possuo poucos amigos, não passo muito tempo com eles. Tenho até um amigo de infância que também vive em Lisboa, mas, embora mantenhamos o contato, nos vemos pouco. Tenho um namorado italiano, que vejo quase todos os dias e recebo muitas visitas de amigos brasileiros de passagem por Lisboa em visita à Europa. Agora, me divido também entre os amigos do namorado que vem visitar.

No tempo livre, costumo circular pelos lugares gratuitos, me perder pelas ruas lisboetas e conhecer a culinária portuguesa e dos diferentes grupos de imigrantes que aqui vivem. Faço aulas de lindy hop, um estilo de dança, às terças feiras à noite. Gostaria de ir à praia, mas nunca encontro disposição.

Não trouxe muitas ilusões pra cá. Vim após uma separação e sem me programar. A escolha do lugar foi circunstancial, pois nunca havia pensado em viver em Portugal ou fora do país. Por coincidência, conheci uma pessoa que havia feito mestrado aqui e pesquisei rapidamente sobre o doutorado. Como as inscrições estavam abertas, tentei e fui aprovada. Tive um mês e meio para me decidir sobre minha vinda e prepará-la.

Como desilusão, trouxe o casamento e o amor terminados. Foi e é difícil se desfazer de todos os planos e projetos de vida construídos. Antes, os mesmos incluíam dar aulas em uma universidade ou uma escola técnica no Brasil. Já havia começado, pois fui professora de patrimônio cultural no Pronatec. Tínhamos o plano de montar uma pousada em um terreno com nascentes perto de Ouro Preto que tínhamos. O mesmo deixou de ser meu… Alguns amigos não lidaram bem com a separação e a escolha de viajar e se distanciaram mesmo no momento de dificuldade. A chegada em um país estranho, a falta de receptividade dos portugueses, que não era esperada, o frio do inverno, um colega de casa que teve uma doença forte que tomou muito tempo, a distância da família e dos amigos, a solidão de forma dura… Coisas que tive que ir superando aos poucos.

Hoje, uma das minhas prioridades é poder cuidar da minha saúde de forma completa e ter mais qualidade de vida. Porém, as incertezas sempre me impelem a tomar medidas paliativas, já que nunca sei como serão os próximos meses. Espero renovar minha bolsa de estudos, quero seguir e estender o período do doutorado de forma a verticalizar a pesquisa e desenvolver um percurso mais profundo. Tenho vontade de viajar para participar em mais congressos e encontros, ter oportunidade de conhecer pesquisas como a minha e partilhar experiências. Para tanto, gostaria de sair da ideia dos protocolos acadêmicos no sentido de preencher currículo e passar às vivências de fato.

Como sequência ao doutorado, gostaria de trabalhar em um órgão internacional de preservação do patrimônio ou dar aulas em uma universidade europeia. A carreira diplomática também me é atrativa, mas as outras opções parecem mais realizáveis caso renove a bolsa. Para o futuro, gostaria de aprender francês.

Foi no Brasil que minha personalidade se formou, as formas de agir e referências culturais que conheço. Apesar de experimentar em Portugal mecanismos de qualidade de vida que não se encontram no Brasil, tenho muito amor pela forma e pela força da nossa identidade.

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