Sarah Rodriguez

Sair do Brasil, para mim, não foi uma opção de largar o país. Foi uma opção de conhecer o mundo, mas voltar.

Eu vim para Portugal para estudar. No Brasil, eu participo de um grupo de danças folclóricas e, a partir disso, comecei a desenvolver uma pesquisa sobre as matrizes das danças folclóricas brasileiras, que seria Portugal, África e povos indígenas. Então, nesse processo, eu vim para Portugal dançar com o meu grupo no ano passado e eu fiquei encantada pelo lugar. Pensei: “Nossa! Quero morar aqui”.

Aqui, eu convivo com gente de várias nacionalidades, porque eu moro em uma pensão onde moram 25 pessoas. A dona da casa é a Dona Rosa, uma senhorinha portuguesa de 70 anos, mas que vira a noite bebendo com a gente. É uma coisa engraçada. Eles bebem muito aqui. A gente não bebe nem um terço do que eles bebem e a bebida é tão maravilhosa, que a gente fica bebendo, bebendo e não fica tonto.

Tenho vários amigos portugueses e gosto muito deles, apesar de não concordar com muitas coisas, mas gosto deles. O meu núcleo de convívio aqui é muito misturado: tem inglês, tem alemães, austríaco, italiano, tem quase todos os países, então a gente se mistura mais, mas tem muitos brasileiros também e a gente tem a capacidade de agregar, né?! Isso é uma qualidade do brasileiro quando está no exterior. Eu convivo com muitos portugueses, eles são muito legais, mas tem sempre uma questãozinha de um preconceitozinho, alguma coisa assim. Sempre. Eu não conheci nenhum que eu pudesse falar que é livre de preconceito contra brasileiro. Eles são muito românticos, são muito deprimidos em alguns aspectos, adoram fado. Nesse aspecto, eles são fofos. Mas também acho estranho, porque as pessoas são grossas o tempo inteiro com você. É muito complicado você achar gente gentil. Elas sempre são brutas no modo de falar. Por outro lado, uma coisa que eu acho incrível é a receptividade com a comida. Se você chega em um lugar, eles já vêm trazendo café, vem trazendo comida, perguntam o que você gosta de comer… são muito receptivos com relação a isso.

Aqui, eu tento transmitir para eles a imagem de que o Brasil é o país incrível que ele é, com esse bando de cor, com esse bando de som, com essa mistura que ele é, ainda que ache que as pessoas aqui não gostam muito da mistura. A gente, às vezes, tem que respirar e falar: “Espera aí. Eu estou em outro país. Eu tenho que respeitar”. Mas, não tem como fugir disso, porque, vendo de fora, o que o brasileiro passa é a alegria. Você vê um brasileiro você sabe que a pessoa está ali de braços abertos.

A volta para o Brasil dá um medo. A gente quer muito voltar, eu quero muito voltar, mas é um medo que dá de as pessoas pensarem que eu não consegui conquistar nada demais. É uma coisa que não existe. Mas é um medo também, porque aqui a gente tem uma vida diferente. Vida de intercâmbio é vida de intercâmbio. Você não tem muita obrigação, não tem muito o que fazer, até porque para trabalhar aqui como brasileiro é muito difícil, principalmente sendo estudante. A gente tentou arrumar alguns trampos, mas você ganha uns €200 e é muito pouco e é muito trabalho. Então, o voltar dá medo porque você volta muito diferente. Agora, eu sou outra pessoa. Dá medo dessa diferença, de como a família e seus amigos vão te ver, porque quem me conheceu antes do intercâmbio e quem me conhece agora sabe que é outra coisa. É uma outra Sarah. Uma Sarah que tem uma vontade de viajar muito maior. Antes eu tinha vontade, mas era tranquilo se não rolasse, tudo bem. Agora, não.

A primeira coisa que quero fazer quando voltar é comer açaí. Aqui é muito caro, não dá para comer. Eu quero ir para minha casa, em Barbacena, ficar com minha família, matar a saudade. Quero ir em um samba de roda. Eu estou morrendo de saudade. Quero ver um tambor de perto, porque aqui não tem. Quero fazer coisas culturais que me encham de amor, porque estou sentindo muita falta.

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